terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As palavras



São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


Hoje, 19 de Janeiro, Eugénio de Andrade faria 88 anos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Bernardo de Passos, Poeta da Minha Terra

Fotografia tirada de http://tochaflorida.blogspot.com/
Busto do poeta no Largo de S.Sebastião ( S. Brás de Alportel)

Tão triste eu ando já, e descontente,
Morre o pobre e nem caixão
Vai no esquife, que desgraça!
Para o cemitério passa
Sem padre nem sacristão!...
Quem fará esta excepção?...
Se é Deus que rege os destinos
Dos grandes e pequeninos,
E todos são filhos seus...
P'ra desmentir esse Deus,
Morre o rico, dobram sinos.
Diz, padre, que leis são essas
Que servem p'ra ti somente...
Tu confessas toda a gente
E à gente não te confessas...
Diz por que tanto te interessas
Nesses segredos que encobres,
Porque é que não te descobres
Nos jornais ou num sermão,
Dizendo porque razão
Morre o pobre e não há dobres?
Só os ricos são gerados,
Dessa Virgem, desse Deus?...
Só eles são filhos seus
E os pobres são enteados?...
Padre, tu só tens cuidados
Com os ricos, teus compadres,
Que deixam ir as comadres
Esmolinhas oferecer
A Deus, sem ninguém saber...
Que Deus é esse dos Padres?...
Qual é o Deus que autoriza,
Ao rico, mil esplendores?
E aos pobres trabalhadores,
Nem pão, nem lar, nem camisa?...
Manda, p'ra quem não precisa,
O oiro, a prata e os cobres,
Palácios, honras de nobres!...
E eu, triste farrapo humano,
Julgo esse Deus um tirano,
Que não faz caso dos pobres




BERNARDO DE PASSOS



Bernardo de Passos nasceu a 29 de Outubro de 1876 em S. Brás de Alportel, vila da beira-serra do Caldeirão, localizada a cerca de dezasseis quilómetros a norte da capital algarvia, e morreu em Faro, a 2 de Junho de 1930. Filho de jornalista, republicano desde a infância, assim se pode dizer, como também, do mesmo modo, se pode afirmar que foi poeta, quando, por volta dos nove anos, fez os primeiros versos. A obra de Bernardo de Passos, pouco extensa, enquadra-se na poesia lírica. O que o poeta escreveu é reflexo da sua vida interior, o espelho de muita sensibilidade e de uma consciência muito equilibrada.(Google)





quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Início de um ciclo especial



Quase nove meses depois, reabro este espaço de que nunca me consegui desligar. Entre mim e o mar há uma ligação umbilical profunda e encerrar o" A Ver O Mar" seria uma amputação de que nem tão cedo me curaria. É certo que muitos momentos houve em que acreditei que iria soçobrar sob os escombros de uma quase hecatombe psicológica que se abateu sobre mim mas aqui estou sã e salva. A minha honorabilidade chegou a ser posta em causa de forma leviana, insensata e irresponsável por quem não me merece credibilidade nem me infunde respeito. Graças a alguns amigos saudavelmente teimosos, fui mantendo algum contacto com a blogosfera e hoje sinto-me preparada para continuar esta aventura, este vício,esta paixão que é fazer verdadeiros amigos a partir de palavras imbuídas de verdade, honestidade, prazer e cujo poder de persuasão me fez voltar a este lugar de ternas recordações. Agora com toda a disponibilidade para essas pessoas.

Bem-hajam!