domingo, 23 de janeiro de 2011

Há-de flutuar uma cidade



há-de flutuar uma cidade
no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al Berto

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As palavras



São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


Hoje, 19 de Janeiro, Eugénio de Andrade faria 88 anos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Bernardo de Passos, Poeta da Minha Terra

Fotografia tirada de http://tochaflorida.blogspot.com/
Busto do poeta no Largo de S.Sebastião ( S. Brás de Alportel)

Tão triste eu ando já, e descontente,
Morre o pobre e nem caixão
Vai no esquife, que desgraça!
Para o cemitério passa
Sem padre nem sacristão!...
Quem fará esta excepção?...
Se é Deus que rege os destinos
Dos grandes e pequeninos,
E todos são filhos seus...
P'ra desmentir esse Deus,
Morre o rico, dobram sinos.
Diz, padre, que leis são essas
Que servem p'ra ti somente...
Tu confessas toda a gente
E à gente não te confessas...
Diz por que tanto te interessas
Nesses segredos que encobres,
Porque é que não te descobres
Nos jornais ou num sermão,
Dizendo porque razão
Morre o pobre e não há dobres?
Só os ricos são gerados,
Dessa Virgem, desse Deus?...
Só eles são filhos seus
E os pobres são enteados?...
Padre, tu só tens cuidados
Com os ricos, teus compadres,
Que deixam ir as comadres
Esmolinhas oferecer
A Deus, sem ninguém saber...
Que Deus é esse dos Padres?...
Qual é o Deus que autoriza,
Ao rico, mil esplendores?
E aos pobres trabalhadores,
Nem pão, nem lar, nem camisa?...
Manda, p'ra quem não precisa,
O oiro, a prata e os cobres,
Palácios, honras de nobres!...
E eu, triste farrapo humano,
Julgo esse Deus um tirano,
Que não faz caso dos pobres




BERNARDO DE PASSOS



Bernardo de Passos nasceu a 29 de Outubro de 1876 em S. Brás de Alportel, vila da beira-serra do Caldeirão, localizada a cerca de dezasseis quilómetros a norte da capital algarvia, e morreu em Faro, a 2 de Junho de 1930. Filho de jornalista, republicano desde a infância, assim se pode dizer, como também, do mesmo modo, se pode afirmar que foi poeta, quando, por volta dos nove anos, fez os primeiros versos. A obra de Bernardo de Passos, pouco extensa, enquadra-se na poesia lírica. O que o poeta escreveu é reflexo da sua vida interior, o espelho de muita sensibilidade e de uma consciência muito equilibrada.(Google)