terça-feira, 12 de agosto de 2008

Miguel Torga faria hoje 101 anos

Vinha de longe o mar...
Vinha de longe, dos confins do medo...
Mas vinha azul e brando, a murmurar
Aos ouvidos da terra um cósmico segredo

E a terra ouvia, de perfil agudo,
A confidencial revelação
Que iluminava tudo
Que fora bruma na imaginação.

Era o resto do mundo que faltava
(Porque faltava mundo!).
E o agudo perfil mais se aguçava,
E o mar jurava cada vez mais fundo.

Sagres sagrou então a descoberta
Por descobrir:
As duas margens de certeza incerta
Teriam de se unir!


Miguel Torga "Portugal"



Miguel Torga é o nome literário do médico Adolfo Rocha nascido em S. Martinho de Anta, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto do ano de 1907. Proveniente de uma família humilde, teve uma infância dura, que lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo e contínuo trabalho. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio em Minas Gerais.
Regressou a Portugal em 1925, concluiu o ensino liceal e frequentou em Coimbra o curso de Medicina, que terminou em 1933. Exerceu a profissão de médico em São Martinho de Anta e noutras localidades do país, fixando-se definitivamente em Coimbra, como otorrinolaringologista, em 1941.
Miguel Torga, tinha uma personalidade literária marcada pela individualidade veemente e intransigente, o que o manteve afastado durante toda a vida, das escolas literárias e mesmo do contacto com os círculos culturais do meio português. Não se inibe de fazer duras críticas desde que as sinta como verdadeiras. Para Torga o título d’Os Lusíadasrepresenta a expressão da nossa tacanhez e os versos, considerava ele, eram mais ilegíveis do que os da Divina Comédia.
A esta intensa consciência individual aliou-se, no entanto, uma profunda afirmação da sua pertença à natureza humana, com que se solidariza na oposição a todas as forças que oprimam a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus. Miguel Torga era por muitos considerado um homem arrogante, expunha a sua verdade sem quaisquer restrições na apreciação de pessoas, acontecimentos e factos; nunca receou atacar o estabelecido ao mesmo tempo que não punha de lado conceitos conservadores em que acreditava:
Torga alterava até as suas próprias posições desde que a "sua" verdade assim o exigisse. Era igualmente um homem obcecado pela ideia da morte e da solidão e afirmava-o de forma inequívoca.
A vivência dos sofrimentos da emigração e da vida rural, do contacto com as misérias e com a morte, fez de Miguel Torga o poeta do mundo rural, das forças telúricas e ancestrais. A revolta contra todas as leis que aprisionam o instinto humano é a grande missão do poeta, que se afirma tanto na violência com que acusa a tirania divina com a terrestre. Essa revolta, está patente na sua obra que, embora recheada de simbologia bíblica, se encontra imersa num sentido divino que transfigura a natureza, e dignifica o homem no seu desafio ou no seu desprezo, face ao divino.
A ligação de Torga a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é uma constante dos seus textos mas, Trás-os-Montes, é o seu grande amor e surge a cada momento na sua prosa, o pseudónimo de Torga não escolhido por acaso: Torga, ou urze, planta bravia, humilde, espontânea e com o seu habitat no chão agreste por todo o Portugal, mas particularmente nas serranias do norte.
Miguel Torga tornou-se um exímio conhecedor de Portugal, conhecimento este, que ele alargou também a Espanha, países por ele considerados unidos no conceito de uma Ibéria comum. Este conceito tinha por base a rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história, e por certas características humanas definidoras da sua personalidade. A intervenção cívica de Miguel Torga, na oposição ao Estado Novo e na denúncia dos crimes da guerra civil espanhola e de Franco, valeu-lhe a apreensão de algumas das suas obras pela censura e, mesmo, a prisão pela polícia política portuguesa.
O 25 de Abril, a par do sentido de libertação traz-lhe algumas desilusões - as perseguições, a procura de lugares.
A política é para eles (os políticos) uma promoção e, para mim, uma aflição.
Sobre a regionalização, pergunta:
O mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la?
Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espirito patriótico e o seu ideal de Pátria.
É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa.
Miguel Torga morre em 17 de Janeiro de 1995 e foi sepultado onde nasceu juntamente com os pais e irmãs. ( extraído da net )

26 comentários:

Mariazita disse...

A minha colaboração no SEMPRE JOVENS é às Terças-Feiras.
No meu blog, A CASA DA MARIQUINHAS, faço postagens Aos Domingos e Quintas Feiras.
Como no próximo dia 15 vou ausentar-me, para férias, gostaria de contar com a tua presença e comentário nestes dois últimos posts, o que antecipadamente agradeço.
Felicidades. Até Setembro.
Beijinhos
Mariazita
PS – Guarda esta informação, que é preciosa -:)))

gaivota disse...

minha querida sophiamar, excelente post a um poeta bem merecedora de toda e qualquer homenagem
falas de mar, margens, rios, águas
lindíssimo poema, parabéns
deixo-te uns ares do meu areal e os pilipares das minahs princesas...
beijinhos grandessssssss

Um Certo Olhar disse...

Um homem inteiro.
Uma saudade.

Beijinho

© Piedade Araújo Sol disse...

um poste a lembrar o Miguel Torga.

merecido.

beij

Agulheta disse...

Olá Sophia. De regresso,e venho dizer um olá aos amigos,um pouco a presa mas para dizer,presente na amizade e solidariedade para contigo.
Beijinho Lisa

Espaço do João disse...

Querida amiga.
Boa resenha sobre Miguel Torga.
Não sei porquê, lembrei-me dum outro escritor que também me emocionou e, já o li várias vezes. Os "Gaibéus" de Alves Redol. Um grande humanista, é também do nosso tempo. Homem que se interessou pela árdua vida dos alentejanos e, não só. Um grande opositor ao antigo regime.

Espaço do João disse...

Peço perdão pelo comentário.
Resolvi passar os olhos pelo espaço e, achei inoportuno o comentário, pois encontrei uma bela descrição de Alves Redol em Novembro do ano Passado. Como ainda era novato nestas andanças, não me apercebi. Se quizeres podes apagar o comentário anterior. Um beijo João.

Sophiamar disse...

Espaço do João

Os dois comentários completam-se, João.Num referes-te a Torga noutro deste pela presença de Alves Redol. Estive mesmo à beira de te dizer isso mas tu descobriste-o.

Beijinhos

Jorge P.G disse...

OLÁ, OLÁ, OLÁ!

DE REGRESSO ESTOU NO DIA DE TORGA!

PARA DEIXAR UM ABRAÇÃO E DIZER QUE AINDA ANDO A "ARRUMAR A MOBÍLIA"!
SÓ PARA PASSAR PARA O COMPUTADOR SÃO UMAS 600 FOTOGRAFIAS! SABES COMO É...MÁQUINA DIGITAL DÁ NISTO!

ATÃO NÃO ESTAVAS DE FÉRIAS ATÉ SETEMBRO?! AI O BICHINHO, NÃO É?

ATÉ LOGO! ESPERO QUE TUDO ESTEJA BEM CONVOSCO.
Jorge G. Sineiro.

lagartinha disse...

ENTRE A SERRA E O MAR, é o meu último projecto, que fiz com todo o carinho, não deixando nunca de pensar no que me disse: "respeita a terra..."
A primeira imagem da casa que publico é para si e está lá nos 3Dês, porque tem a ver com o mar, porque tem a ver com a terra e porque depois vai ver que pouco alterei o ambiente em que está inserida a casa que há-de ser minha.
Um beijinho grande e obrigada pelos conselhos...

Daniel Aladiah disse...

Querida Isabel
Bela e merecida homenagem a quem poderia ter sido Nobel.
Um beijo
Daniel

Brancamar disse...

Olá Isabel,

Não podia deixar de ser, escolheres este belo poema do Mar, de Miguel Torga, para o homenagear.
Um beijinho grande para ti.

E a Maria já está grande? Beijinhos para ela.

Ana disse...

Recordar alguém é mantê-lo vivo.
A homenagem tem a tua cor... a cor do mar.
Um beijo e boas férias, Isabel.

elvira carvalho disse...

Penso que já lhe disse que Miguel Torga não era de forma alguma um poeta que eu cultivasse. Talvez porque tenha lido há muito alguma coisa de que não gostei e por isso pus de parte. Um amigo de quem tenho muitas saudades me ensinou a ler e compreender Torga. E se hoje o considero um grande Mestre, devo-o a esse amigo.
Para ele, onde quer que ele ande, um muito obrigada.
Um abraço e continuação de boas férias

Teresa Durães disse...

um poema bastante bonito e uma excelente homenagem

Anita disse...

Que teu dia seja realmente um óptimo dia...
Que tuas horas sejam cheias de felicidade...
Que o teu entardecer seja o mais maravilhoso...
Que o teu anoitecer seja carinhosamente depositado por Deus...
Que teu dia, tarde e noite sejam mágicos e que muitas flores enfeitem o seu caminho...

Beijos.
Fica bem. Fica com Deus.
Anita (amor fraternal)

Zé Povinho disse...

Um grande homem e não só nas letras onde se notabilizou.
Abraço do Zé

amigona avó e a neta princesa disse...

Minha querida Isabel como me deliciei! Deixo um abraço de saudades se o pc deixar...de vez em quando apaga tudo!!!
Beijos minha querida e boas férias!

anamarta disse...

Bom dia Isabel
Miguel Torga um grande poeta e escritor, um dos que mais gosto e merecia ter sido Nobel. Talvez a sua humildade e humanidade o impedisse. Bonita e merecida homenagem!
beijos e continuação de boas férias

jo ra tone disse...

Olá Isabel,
Bela homenagem de um grande português
poeta e "vidente" como se pode constar nos momentos actuais.
Conheço alguns locais em Coimbra onde o poeta viveu.
Beijinhos

leituras disse...

Saúdo-te pela homenagem que fazes a Miguel Torga.
É bom saber que não se afunda na mediocridade das revistas e jornais sensasionalista o gosto de muitos portugueses pela leitura.

Boa semana, boas férias (se for o caso) com boas leituras.

Vb disse...

Olá Isabel… Tudo bem?
Espero que as férias estejam a decorrer bem e que o ar da serra contribua para dar mais sabor ao presunto, ao queijo e ao vinho com que te delicias no Canto do Melro.
As minhas irão chegar na primeira quinzena de Setembro e irei passá-las naquela terra que o teu amigo Zeca Afonso homenageou com a composição: Os Índios da Meia Praia.
Gosto muito do Torga também. Principalmente da sua obra em prosa. Por vezes algumas das histórias parecem ter sido passadas aqui na nossa Serra algarvia.
O Torga também passou um ano as suas férias perto do teu Canto do Melro. Ficou, salvo erro, na Pousada. Li há tempos um texto escrito por ele e dedicado a S.Brás de Alportel. Vou tentar encontrá-lo e mando-to por e-mail, assim que possível.
Tudo de bom e a continuação de boas férias.

Um beijinho meu e dos meus amores-perfeitos que gostaram muito de ti.

Vitor Barros

Mariazita disse...

Isabel
Belo, este poema de Miguel Torga.
Belos, todos os poemas de Miguel Torga!!!
É um dos meus preferidos (mas há muitos mais!)
Vinha só deixar um beijinho de despedida e vê que recepção!
Estou num dia de sorte.
Beijinhos, querida, até Setembro.
Mariazita

Graça Pires disse...

Torga, o poeta fantástico, o homem coerente e humanista. Que bom vir encontrar aqui esta homenagem. Um beijo para ti.

Espaço do João disse...

Querida amiga.
Realmente as rosas devem ficar onde estão, no entanto podes colher aquelas que publico. Uma coisa tenho dito a toda a gente; Quando deixar este mundo não me ofereçam flores. Basta o pouco tempo que elas teem para mostrar sua beleza. Não vale a pena chorar sobre o leite derramado, pois o jardim ficava mais triste. Um beijo João.

Papoila disse...

Grande Torga!
Para ti, um Beijo