sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fernando Pessoa faria hoje 120 Anos

Fernando Pessoa com 10 anos



Às quinze horas e vinte minutos do dia 13 de Junho de 1888 nascia, em Lisboa, o poeta Fernando Pessoa. Faria hoje 120 anos. O parto ocorreu no quarto andar esquerdo do nº 4 do Largo de São Carlos mesmo em frente do Teatro. Foi baptizado em 21 de Julho na Igreja dos Mártires, no Chiado. O nome Fernando António encontra-se relacionado com Santo António pois a sua família reclamava uma ligação genealógica com Fernando de Bulhões, nome de baptismo de Santo António cujo dia se comemora hoje. A sua infância e adolescência foram marcadas por factos que o influenciariam posteriormente. Às cinco horas da manhã de 24 de Julho de 1893, o pai morre com 43 anos vítima de tuberculose. A morte é reportada no Diário de Notícias do dia. Joaquim de Seabra Pessoa deixou-o com apenas cinco anos, a mãe e o seu irmão Jorge que viria a falecer no ano seguinte sem chegar a completar um ano. A mãe vê-se, então, obrigada a leiloar parte da mobília e mudam-se para uma casa mais modesta, o terceiro andar do n.º 104 da Rua de São Marçal. É também nesse período que surge o seu primeiro heterónimo, Chevalier de Pas, facto relatado pelo próprio Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, numa carta de 1935 em que fala extensamente sobre a origem dos heterónimos.
Fernando Pessoa com 20 anos

Ainda no mesmo ano cria seu primeiro poema, um verso curto com a infantil epígrafe de " À Minha Querida Mamã". A mãe casa-se pela segunda vez, em 1895, por procuração, na Igreja de São Mamede em Lisboa, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban,África do Sul, o qual havia conhecido um ano antes. Em África, Pessoa viria a demonstrar possuir desde cedo talento para a literatura. Devido ao casamento da mãe, muda-se para Durban, onde passa a maior parte da sua juventude. Aí recebe uma educação britânica, que lhe proporciona um profundo contacto com a língua inglesa. Os seus primeiros textos e estudos são feitos em inglês. Mantém contacto com a literatura inglesa através de autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, entre outros. O inglês teve grande destaque na sua vida, trabalhando com o idioma quando, mais tarde, se torna correspondente comercial em Lisboa, além de o utilizar em alguns dos seus textos e traduzir trabalhos de poetas ingleses, como O Corvo e Annabel Lee de Edgar Allan Poe. Com excepção de Mensagem, os únicos livros publicados em vida são os das colectâneas dos seus poemas ingleses: Antinous e 35 Sonnets e English Poems I - II e III, escritos entre 1918 e 1921.
Faz a instrução primária na escola de freiras irlandesas da West Street, onde realiza a sua primeira comunhão e percorre em três anos o equivalente a cinco. Em 1899 ingressa na Durban High School, onde permanecerá durante três anos e será um dos primeiros alunos da turma. Nesse mesmo ano cria o pseudónimo Alexander Search, no qual envia cartas a si mesmo utilizando esse nome. No ano de 1901 é aprovado com distinção no seu primeiro exame da Cape Scholl High Examination e escreve os primeiros poemas em inglês. De férias, vem em 1901 com a família para Portugal. Em Lisboa, mora com a família em Pedrouços e, depois, na Avenida de D. Carlos I, n.º109, 3º. Esqd. Viaja com o padrasto, a mãe e os irmãos para a Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna. Também viajam, depois, para Tavira, Algarve, onde vão visitar os parentes paternos. Nessa época escreve a poesia "Quando ela passa".




Fernando Pessoa pintado por Almada Negreiros

Quando todos regressam para Durban: a mãe, o padrasto, os irmãos e a criada Paciência, Fernando Pessoa fica em Lisboa. Volta sozinho para a África no vapor Herzog. Na mesma época, tenta escrever romances em inglês e matricula-se na Commercial School. Estuda à noite enquanto de dia se ocupa com disciplinas humanísticas. Em 1903, candidata-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança. Na prova de exame para a admissão, não obtém uma boa classificação, mas tira a melhor nota entre os 899 candidatos no ensaio de estilo inglês. Recebe por isso o Queen Victoria Memorial Prize (Prémio Rainha Vitória). Um ano depois novamente ingressa na Durban High School onde frequenta o equivalente a um primeiro ano universitário. Aprofunda a sua cultura, lendo clássicos ingleses e latinos; escreve poesia e prosa em inglês e surgem os heterónimos Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Por fim, encerra os seus estudos na África do Sul após realizar na Universidade o «Intermediate Examination in Arts», adquirindo bons resultados.Deixando a família em Durban, regressou definitivamente à capital portuguesa, sozinho, em 1905. Passa a viver com a avó Dionísia e as duas tias na Rua da Bela Vista, 17. A mãe e o padrasto também retornam a Lisboa, durante um período de férias de um ano em que Pessoa volta a morar com eles. Continua a produção de poemas em inglês e em 1906 matricula-se no Curso Superior de Letras, actual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que abandona sem sequer completar o primeiro ano. É nesta época que entra em contacto com importantes escritores de literatura da língua portuguesa. Interessa-se pela obra de Cesário Verde e pelos sermões do Padre António Vieira.
Em Agosto de 1907, morre a sua avó Dionísia, deixando-lhe uma pequena herança. Com esse dinheiro, monta uma pequena tipografia, que rapidamente faliu, na Rua da Conceição da Glória, 38-4.º, sob o nome de «Empresa Íbis — Tipografia Editora — Oficinas a Vapor».




Na baixa lisboeta

A partir de 1908, dedica-se à tradução de correspondência comercial, um trabalho que poderíamos chamar de "correspondente estrangeiro". Nessa profissão trabalha a vida toda, tendo uma modesta vida pública.Inicia a sua actividade de ensaísta e crítico literário com a publicação, em 1912, na revista «Águia», do artigo «A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada», a que se seguiriam outros.
Pessoa é internado no dia 29 de Novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, com diagnóstico de "cólica hepática" falecendo de suas complicações, possivelmente associada a uma cirrose hepática provocada pelo óbvio excesso de álcool ao longo da sua vida .No dia 30 de Novembro morre aos 47 anos. Nos últimos momentos da sua vida pede os óculos e clama pelos seus heterónimos. A sua última frase é escrita no idioma no qual foi educado, o inglês: I know not what tomorrow will bring (Eu não sei o que o amanhã trará). A vida do poeta foi dedicada a criar e ,de tanto criar, outras vidas gerou através de seus heterónimos, o que foi a sua principal característica. Alguns críticos questionam se Pessoa realmente teria transparecido o seu verdadeiro eu, ou se tudo não tivesse passado de mais um produto de sua vasta criação. Ao tratar de temas subjetivos e usar a heteronímia, Pessoa torna-se enigmático ao extremo. Este facto move grande parte das buscas para estudar sua obra. O poeta e crítico brasileiro Frederico Barbosa declara que Fernando Pessoa foi "o enigma em pessoa". Escreveu desde sempre, com seu primeiro poema aos sete anos e pondo-se a escrever até mesmo no leito de morte. Importava-se com a intelectualidade do homem, e pode-se dizer que sua vida foi uma constante divulgação da língua portuguesa, visto que, nas próprias palavras do poeta, ditas pelo heterónimo Bernardo Soares, "minha pátria é a língua portuguesa" ( google/ imagens e texto)

Ricardo Reis

48 comentários:

Vb disse...

“ e juntávamo-nos muitos, moços e moças, lá na casa da tua avó Pires para saltarmos a fogueira.
Dias antes já tínhamos apanhado o alecrim e secado parte dele. Quando era pouco juntava-se um pouco de lenha.
Cada vez pulava um a fogueira e os outros iam contando: uma, duas, três, quatro…
Nós moças segurávamos as saias com uma das mãos e pulávamos felizes rindo e mangando. Fazíamos muitos jogos de namoros e namorados. Fazíamos o jogo do sapato, o molde em cera, o do raminho de alecrim e o das favas. Arranjávamos três favas, uma completamente descascada, outra meio descascada e outra com a casca toda. As favas pulavam a fogueira connosco e no fim sem vermos jogava-mos uma para o fogo, outra para a água e ficávamos com a outra. Se ficássemos com a fava despida íamos ser pobres o resto da vida, se ficássemos com a que estava meio descascada seríamos remediadas e se nos calhasse a fava com a casca completa seriamos ricas.
O sapato voava pelos ares e para onde ficasse voltada a biqueira seria o sítio de onde o moço namorado era.
E juntávamo-nos muitos, moços e moças, lá na casa da tua avó Pires para saltarmos a fogueira”


Passei por lá hoje e na casa da minha avó Pires não há moços nem moças…
No chão um pouco de cinza e o sinal de uma fogueira. Ao lado uma fava completamente despida sorri-me…Pego nela e ouço-a contar: uma, duas, três, quatro…

Um grande beijo

Vitor Barros

Vb disse...

Olá Isabel...

Este comentário era para o post anterior...

Mas também fica bem aqui!

Um bom fim-de-semana

Beijinhos

VBarros

Filoxera disse...

Olá, amiga.
Grande produção!
Virei lê-la quando puder concentrar-e, pois hoje aqui é feriado e tenho as "feras" em casa.
Gosto do Fernando Pessoa e heterónimos, embora ainda me falte conhecer grande parte da obra.
Beijos.

anamarta disse...

Isabel
Fizeste um trabalho muito melhor que o meu! mais trabalhado e mais bonito!Parabéns.
beijinhos

Sophiamar disse...

Vítor, Mano, Amigo:

Já comentei no post anterior. As tuas palavras ficam bem em qualquer lado. São de amizade e esta onde cai só nos traz alegria.

Beijinhos

Obrigada!

Bem hajas!

Bom fim de semana!

Sophiamar disse...

Filoxera, Amiga:

Passa quando puderes. Essas " ferazitas" são o melhor que há no mundo.

Por muito que lhes demos nunca é demais.

Beijinhos

Bom fim de semana!

Sophiamar disse...

anamarta

Não digas isso, amiga. Achei o teu trabalho muito melhor.Diferente, muitíssimo bom.
Repito: gosto muito do teu blog e da forma como seleccionas os posts. Sou uma incondicional amante de poesia. E lá no teu canto há da melhor.

Beijinhos

Bom fim de semana!

Agulheta disse...

Sophia. Por aqui não se festeja muito este santo,mas gosto de ver,aqui é mais o S.João.Falar de Pessoa,nada mais se pode dizer de alguém,que fez a melhor poesia,escreveu palavras de grande encanto e magia.
Beijinho bfs Lisa

lena disse...

hoje não sou o silêncio, não consigo ficar indiferente ao "mestre"

120 anos! como eu adorava ter vivido nessa época, ter o prazer de me cruzar com ele no chiado sem ser estátua ...

deixo-te um dos seus heterónimos que adoro


Nem Sempre Sou Igual

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...


Alberto Caeiro
O Guardador de Rebanhos


obrigada pela extraordinária partilha

para ti não sou ausência. porque estou

um abraço termo e amigo

beijinhos para ti amiguinha


lena

jo ra tone disse...

Fiquei a saber muito sobre a vida de um dos maiores poetas portugueses.Gostei do que li.
E agora ,
vou a pé até à festa do Santo António,que fica a escassos 3 kms .
Vou saltar a fogueira e comer uma sardinhinhas assadas.
Beijinho daqui

O Sibarita disse...

Olá Dona Moça! kkk

Que excelente texto lembrando do Fernando Pessoa!

Com toda sinceridade aprendi mais um pouco sobre este que considero o maior poeta português de todas as épocas!

Bjs.
O Sibarita

elvira carvalho disse...

Gostei do texto. Fernando Pessoa foi um grande poeta. Para mim o maior de todos os tempos.
Um abraço e bom fim de semana

Ana disse...

" Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"
Álvaro de Campos.

Associando-me à tua homenagem ao Poeta maior.

Um beijo, amiga.

amigona avó e a neta princesa disse...

Bonito trabalho amiga...gostei muito de ler...

amigona avó e a neta princesa disse...

Desculpa mas e os beijinhos? Muitos e bom fim-de-semana...

Jorge P.G disse...

Desta vez quem teve que ler em fascículos, fui eu.
como compreenderás não me trouxe grandes novidades porque acho que já li boa parate do que existe sobre Pessoa, esse que foi para mim um dos génios literários do passado século.
Indefinível, único. Apenas W.B.Yeats ombreia com ele.

Mas se para mim não constituiu grande novidade, talvez para outras pessoas seja extremamente útil e enriquecedor.
É assim a vida e aprendemos sempre qualquer coisa uns com os outros.

Um abraço e bom sábado, e amanhã... são 3 meses! Julgavas que me esquecia?!
Um sorriso, desde já.

gaivota disse...

olá minha amiga, parei e vim "espreitar-te", fernando pessoa, o homem das letras, que vai recolhendo as pedras pelo caminho... um dia constrói um castelo!
dou conta que é bem conhecido por outros mundos, nalguns sítios onde tenho passado oiço falar dele, o que é muito bom! e no estrangeiro, sentimo-nos mais porugueses!
é bastante enriquecedor o que encontramos aqui na tua casinha, obrigada, minha amiga, por tudo o que me (nos) ensinas
o tempo corre, assim envio 3 sopros leves para uma "velinha" de Mar!
beijinhos gandes e tudo de bom para ti e família

Graça Pires disse...

"No tempo em que eu festejava o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto..." Ele o disse. Bela homenagem. Um beijo.

Papoila disse...

Querida Amiga:
Um trabalho magnífico sibre esse grande poeta Fernando Pessoa.
Um artigo de referência para estudo.
Beijos

Paulo disse...

Deixo-Vos aquele que para mim é um dos melhores poemas de Fernando Pessoa, no qual nos retratamos, no decorrer das nossas vidas.

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Sophiamar disse...

Agulheta

Desconhecia que no Porto não se festejava o Santo António. Sei que há festa rija no S.João e já lá passei algumas noites até ao nascer do sol. Festas inesquecíveis! E a Ribeira engalanada, toda a zona ribeirinha, o fogo de artifício sobre o Douro são uma maravilha.
Beijinhos

Sophiamar disse...

Leninha, Amiga Linda!

Hoje apareceste e foi com muito gosto que registei a tua passagem. Vem mais vezes, minha linda. Há por aqui muito boa gente, como sabes.
O nosso Mixtu partiu. Talvez ande por aí a dar-nos uma forcinha.Foi ele que me fez entrar nestas lides.
Tenho tantas saudades das nossas tertúlias! E da nossa inesquecível Dreams! Tanto de bom lhe devemos! Que Deus a guarde!

Beijinhos mil

Leonor disse...

ola isabel
uma biografia excelente. um dos meus poetas fantasticos. que orgulho ser portugues.
beijinhos

Sophiamar disse...

Jo Ra Tone

Espero que te tenhas divertido muito e que tenhas regressado a casa na paz de Santo António.
Fernando Pessoa é dos Maiores.

Beijinhos

Sophiamar disse...

Olá Senhor Moço!

Fernando Pessoa é dos Maiores do Mundo.

Beijinhos

Sophiamar disse...

Elvira

Fernando Pessoa está entre os maiores do mundo.

Beijinhos

Sophiamar disse...

ana

Tu contribuíste para que eu conhecesse o mundo da poesia num plano ainda mais alargado. Obrigada, amiga!

A tua presença e as tuas palavras são muito queridas.

Beijinhos mil

Sophiamar disse...

Amigona

Obrigada,amiga! Eu também gosto muito da tua presença neste espaço.

Beijinhos mil

Sophiamar disse...

Jorge:

Este post convida mesmo à leitura em fascículos. Entendi que não deveria suprimir nada do que copiei do google. No entanto ainda complementei com a leitura do post da anamarta. Ler sobre a vida de Pessoa, ler a obra de pessoa é sempre enriquecedor. Sabes que a farense Teresa Rita Lopes é uma das estudiosas de Pessoa? Creio que já disse isso aqui.

Amanhã, 3 meses! Isso mesmo! E o almoço já está combinado com a respectiva foto individual e de família.

Um abraço fraterno

Sophiamar disse...

Gaivota

Foi um prazer, amiga! Gostei muito, muito. Bem hajas! Percebes?

Três meses, amanhã!O tempo voa!

Pessoa é ENORME! Leio-o, releio-o e aprendo cada vez mais. Essa das pedras, tão conhecida, mais uma lição de vida.

Beijinhos, Gaivota amiga.

Sophiamar disse...

Graça Pires

Poeta, amiga, Fernando Pessoa é uma das nossas paixões.É a poesia no seu melhor.

Beijinhos

Sophiamar disse...

Papoila

Amiga, Fernando Pessoa é/ foi um génio. Não morrerá!

Beijinhos

Bem hajas!

Sophiamar disse...

Paulo

" Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Para ler e pensar.

Sonhar sempre!

Bem hajas!

Um abraço

Sophiamar disse...

Leonor

Sê bem vinda, amiga!
Fernando Pessoa é um dos maiores.
Teresa Rita Lopes, algarvia, de Faro, tem-no estudado e tem obra publicada sobre este genial poeta.

Beijinhos

Tudo de bom!

tulipa disse...

Muito obrigado pela partilha da vida de Fernando Pessoa.
Nunca me tinha debruçado sobre a sua vida e fiquei surpresa por saber que viveu em África.
Que viveu em Durban, onde passou a maior parte da sua juventude.

Tal como ele, eu também estudei num colégio de freiras, mas não irlandesas.
Gostei de saber.
Bom domingo.

Espaço do João disse...

Belo texto e muita paciência na pesquisa.

Agora falemos do Hibiscus:- Não! não é um Hibiscus, é uma rosa que considero muito linda e vou fazer todos os possíveis para não a perder. Como são plantas de viveiro, é preciso muito cuidado com elas. Já perdi uma muito linda que me custou 25€ e, fiquei muito triste. Esta ofereço-te porque não a conheces. Um beijo. João

Sophiamar disse...

Tulipa

Gostei da tua passagem por aqui e do comentário adequado ao post. Passarei amanhã pelo teu blog.

Beijinhos

Obrigada!

Sophiamar disse...

João

Amigo, a pesquisa foi quase uma cópia. Pouco trabalho deu.
A rosa é de facto muito bonita.Pelas folhas parecia-me um hibisco.
Lindíssima rosa!

Recebo-a com muito gosto.

Obrigada!

Quando for de férias para o campo, fotografarei as minhas flores para que as vejas.

Beijinhos

anamarta disse...

Isabel
Quando vi este calendário, pensei é este mesmo que a isabel vai gostar! Acho que tem tudo a ver contigo.
beijinhos bom domingo

Sophiamar disse...

Este mar encantou-me. Acho que vou fazer uma alteração nas cores do blogue. Ando sempre em mudanças!

Beijinhos

Obrigada!

Brancamar disse...

Como já é muito tarde vou só deixar-te votos de Bom Domingo e um grande beijinho.
Volto amanhã para ler o post com a atenção que merece.
Beijos
Branca

Sophiamar disse...

Brancamar, Amiga!

A tua passagem por aqui é sempre bem vinda. A amizade , eu sei, não se mede pelo número de visitas, mas sempre que aqui deixas umas palavrinhas, fico muito satisfeita. Sei-te muito ocupada.Eu também tenho andado um pouco ausente do teu canto. Desculpa.

Beijinhos mil

Bem hajas!

Bom Domingo!

Um Certo Olhar disse...

Entre os maiores, destaco Pessoa, senhor das multipersonalidades. Um corpo grande que alojou vultos de invulgares dimensões.

bjo

Brancamar disse...

Isabel,
Cá estou de novo, tal como prometi ontem.
Li todo este post com muita atenção e parece-me que de Fernando Pessoa se aprende sempre algo de novo, eu aprendi aqui contigo.
Tão vasta e tão intensa é a sua obra e a sua própria vida, apesar de não ter sido muito longa que sempre se torna fascinante ler tudo o que lhe diga respeito.
Obrigada amiga.
Beijinhos

Sophiamar disse...

Certo Olhar

Sê bem vinda a este espaço. As portas estão abertas.Fernando Pessoa conviveu com múltiplas personalidades. Resta saber qual delas se aproximou mais da verdadeira.

Beijinhos

Sophiamar disse...

Brancamar

Obrigada, amiga.Sensibilizaram-me as tuas palavras.Ler Pessoa, ler sobre Pessoa é sempre muito interessante. E aprendemos ou recordamos um bocadinho mais deste poeta maior.

Beijinhos

Bem hajas!

ASPÁSIA disse...

AMIGA

UMA FASCINANTE PLURIPERSONAGEM DO SÉC.XX PORTUGUÊS!
COM ESTE POST, QUASE FIQUEI A CONHECER PESSOA... EM PESSOA!

BEIJINHOS

Sophiamar disse...

Aspásia, Amiga!

Um multipersonalidade num só corpo. Qual delas conviveria melhor dentro dele?

Deixo-te mil beijinhos

Bem hajas!